quinta-feira, 24 de abril de 2008

PEEPING TOM (1960) - Michael Powell



Dizer apenas que Peeping Tom é uma obra-prima, será dizer pouco. Com efeito, esta obra de Michael Powell, datada de 1960, será uma das mais importantes reflexões cinematográficas alguma vez feitas sobre... o Cinema. Estamos perante uma situação limite, onde a câmara funciona como a violadora extrema do ser humano, tornando-se num assunto de vida ou morte, numa obsessão, numa arma, num estado de espírito. No fundo, Powell reflecte sobre os efeitos que o cinema provoca não só em quem o faz, mas também em quem o vê, abordando esse complexo jogo voyeurista através de uma espécie de multiplicidade de pontos de vista: o do seu protagonista, o das pessoas que ele filma e, claro, o do público, aquele que depende cada vez mais das imagens...

Há quem classifique Peeping Tom como um thriller, ou mesmo uma história de horror, mas para evitar equívocos convém esclarecer que o filme se distancia consideravelmente dos nossos ideais sobre estes géneros. Não temos perseguições ou assassinos a surgir repentinamente por detrás de uma porta com uma faca na mão. Temos, isso sim, um complexo jogo emocional que, a considerar a hipótese de este ser um filme de terror, o será acima de tudo devido à relação entre um homem, Mark Lewis (Carl Boehm, numa sinistra e brilhante interpretação) e a câmara de filmar. A certa altura, pensamos mesmo em David Cronenberg e naquele que é um dos temas primordiais do seu cinema: o domínio da máquina sobre o homem. E o que Powell aqui fez (anos antes de Cronenberg fazer o que quer que fosse) foi colocar-nos perante um homem absolutamente dependente da sua máquina de filmar, parte essencial da sua vida desde a infância, desde o tempo em que o seu pai, um cientista, insistia em filmá-lo constantemente de forma a estudar o comportamento e o medo nas crianças. O cinema como o elemento mais aterrorizador de todos? Mais até do que isso, temos o cinema como um órgão vital, e não é por mero acaso, ou por qualquer tipo de limitação em termos de casting que o próprio Powell surge interpretando a figura do pai de Mark, mas sim porque ele próprio quer deixar bem claro que, olhando de frente para a câmara (para nós), pretende analisar-nos como espectadores do seu (e de qualquer) filme, na nossa condição de voyeurs máximos.

Quanto à história, esta começa com um plano de pormenor de um olho a abrir e depois seguimos para uma rua onde, através do olhar da objectiva da câmara, assistimos a um assassinato. Quem o cometeu foi Mark, que vemos de seguida em casa a visionar as imagens que captou do crime que, segundo ele, virão um dia a fazer parte do seu filme documental. Além deste estranho passatempo, Mark ganha também a vida a fotografar imagens eróticas e como responsável pela focagem numa produtora cinematográfica local. Apesar de tímido, Mark parece ter uma ligação normal com os seus colegas de trabalho, mas rapidamente nos apercebemos que este tem o hábito irresistível de observar os outros, preferencialmente com a sua câmara em punho. E é num desses momentos de fixação que Mark conhece Helen (Anna Massey), que de imediato se interessa pela sua personalidade misteriosa e com quem inicia uma relação.

Além deste par, Michael Powell polvilhou o seu filme com personagens secundárias bastante significativas, desde o realizador e a estrela caprichosa do filme para o qual Mark trabalha, aproveitando aqui Powell para lançar algumas críticas mordazes ao seio da própria indústria, passando pelo dono da loja para a qual Mark vende as suas fotos eróticas e as suas próprias modelos e culminando na mãe de Helen que, também não por acaso, é cega. Mais importante do que o mistério da sua história surge a abordagem fenomenal e incisiva ao tema que, sugerindo o cinema como violador da intimidade e fonte causadora de medo e dependência, fez mesmo com que o realizador inglês nunca mais pudesse realizar um filme com a facilidade que o seu estatuto até então permitia, passando os seus projectos a ser rejeitados pelos grandes estúdios que classificaram Peeping Tom como uma obra perigosa e doentia – curiosamente, no mesmo ano Alfred Hitchcock lançou o fabuloso Psycho, que de certa forma abordava uma tema similar e toda a gente, do público aos estúdios ficou deliciada. Mas a realidade é que hoje o filme permanece como um marco importantíssimo na história do cinema e funciona ainda como uma poderosa experiência introspectiva e visual (e forma como as cores são utilizadas, especialmente o vermelho – imagem de marca do cinema de Powell – são de deixar qualquer um estarrecido). Em suma, uma obra indispensável a qualquer cinéfilo e um dos melhores filmes de sempre.


Texto do blog Cine pt

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